Os irmãos Cid, vindos de Crato, no Ceará, dão vida a um boi de couro negro num quintal de Parintins, para cumprir uma promessa a São João. Nascido de pano, fé e gratidão, nunca mais parou de andar.
1965
Nasce o Festival de Parintins
Surge o Festival Folclórico de Parintins, criado para arrecadar recursos para a construção da Catedral de Nossa Senhora do Carmo. Era ainda um arraial de grupos folclóricos: os bois não integravam a festa, e não havia disputa.
1967
A primeira vitória do Caprichoso
Quando os bois passam a se apresentar no Festival, é em 1967, na saída de São João, que o Caprichoso é aclamado pelo público como o melhor. O boi azul reconhece esse momento como sua primeira vitória — o nascedouro das disputas e o início de uma trajetória vencedora.
1976–1979
O primeiro tetracampeonato da história
Com os títulos de 1976, 1977, 1978 e 1979, o Caprichoso conquista quatro festivais consecutivos e se torna o primeiro tetracampeão da história do Festival Folclórico de Parintins.
1982
O boi passa a ser do povo
O Caprichoso deixa de ter dono e se transforma em associação cultural, dirigida por presidentes eleitos. O boi que nasceu de uma família passa a pertencer a uma comunidade inteira.
Anos 1990
O Caprichoso ganha o Brasil
Cobertura nacional, profissionalização da arena e reconhecimento como ícone da resistência cultural amazônica. O Festival entra na agenda do país.
1994–1996
Tricampeonato na era do Bumbódromo
Capricho dos Deuses, Luz e Mistérios da Floresta e Criação Cabocla: três títulos seguidos que consagram a força artística do Boi Negro.
2010
A volta de David Assayag
O reencontro com uma das vozes históricas do boi abre uma nova era artística na arena.
2012–2018
Uma era de ouro
Títulos em 2012, 2015, 2017 e 2018. Espetáculos que renovaram a linguagem da arena e firmaram o Boi Negro como potência artística do Festival.
2022–2024
Novo tricampeonato
Amazônia: Nossa Luta em Poesia, O Brado do Povo Guerreiro e Cultura: O Triunfo do Povo. Três títulos consecutivos que reafirmam o Caprichoso entre as maiores agremiações culturais do Brasil.
2026
Brinquedo que canta seu chão
Patrimônio vivo da Amazônia, o Caprichoso entra em 2026 carregando a memória de mais de cem anos de festa, fé e resistência.
Os fundadores
Quatro irmãos, uma promessa.
Roque, Antônio, Beatriz e Pedro Cid vieram do Ceará para Parintins. Em 1913, fundaram o Boi Caprichoso para cumprir uma promessa a São João Batista. O brinquedo nasceu de pano, fé e gratidão — e nunca mais parou de andar.
O que era íntimo virou comunitário: hoje, o sonho dos Cid é comungado por uma Amazônia inteira.
Por que Boi de Parintins
Nove currais, uma cidade inteira.
Em suas primeiras décadas, o Caprichoso não tinha endereço fixo. A cada nova gestão, o boi mudava de curral e se instalava em um novo canto de Parintins — e foi essa caminhada pelos quatro cantos da cidade que lhe deu o apelido eterno de “Boi de Parintins”. Foram nove currais até que, no início dos anos 1980, o Boi Negro encontrou sua casa definitiva: o Curral Zeca Xibelão, na Rua Gomes de Castro, batizado em homenagem a um de seus mais icônicos tuxauas.
1913–1918
Av. Sá Peixoto
1918–1931
Av. Rio Branco
1932–1942
Av. Sá Peixoto
1943
Av. João Meireles
1944–1947
Beco Castelo Branco
1948–1963
Av. Rio Branco
1964
Av. Rio Branco e Furtado Belém
1965–1967
Parananema e Travessa Cordovil
1968–1981
Travessa Cordovil
Desde os anos 1980
Curral Zeca Xibelão, Rua Gomes de Castro — a casa definitiva
Parintins, Amazonas — palco dos nove currais do Boi Negro.
De onde tudo vem
Antes da arena, a rua.
O Boi de Rua
A festa mais tradicional do Caprichoso acontece todo mês de abril e é onde o boi volta às suas origens. Sob fogueiras e lamparinas, com Marujada, Vaqueirada, Pai Francisco e Mãe Catirina, centenas de brincantes caminham pelas ruas da cidade, reunindo famílias nas portas das casas. O cortejo passa por pontos marcantes de Parintins, como a Catedral de Nossa Senhora do Carmo, até chegar ao Curral Zeca Xibelão.
O auto do Boi
No coração da brincadeira está um auto popular de morte e ressurreição. Em seu ritual mais antigo, Pai Francisco abatia o boi para satisfazer o desejo de Mãe Catirina, e a língua do animal era retirada e oferecida ao dono da casa — gesto simbólico com que se arrecadavam recursos para os festejos do encerramento dos folguedos juninos. É dessa raiz de fé, fartura e teatro de rua que nasceu tudo o que hoje brilha na arena.
O Legado
As vozes e os corpos que carregaram o Boi Negro.
Mais de um século de papéis passados de geração em geração — cada nome, um capítulo da mesma história.
Levantador de Toadas
A voz que ergue a arena.
O levantador dá voz às toadas e conduz a galera no canto. Arlindo Júnior abriu caminho a partir de 1989, inovando com novas coreografias e, em 1996, inaugurando os medleys que eletrizavam a arena. Em 2010, David Assayag assumiu o posto e abriu uma nova era artística, permanecendo até 2020. Desde 2020, Patrick Araújo é a voz oficial do Boi Negro.
Apresentador
Quem narra e costura o espetáculo.
O apresentador guia o público pela apresentação, item a item. A função passou por Marcos Santos, Gil Gonçalves, Arlindo Júnior e Junior Paulain ao longo das décadas. Desde 2016, Edmundo Oran é o apresentador oficial do Caprichoso.
Cunhã-Poranga
A guerreira mais bela da tribo.
Símbolo de força e beleza indígena, é um dos itens mais aguardados da arena. Luisiana Medeiros a interpretou já em 1989 — no mesmo ano em que representou o Amazonas no Miss Brasil. Maria Azêdo marcou época entre 2007 e 2016. Desde 2017, Marciele Albuquerque, natural de Juruti, é a Cunhã-Poranga do Boi Negro.
Pajé
O guardião espiritual da tribo.
O Pajé conduz o ritual e a mística do espetáculo. Waldir Santana viveu o papel por mais de duas décadas, de 1992 a 2016 — uma das mais longas permanências da história do boi. Neto Simões o sucedeu, e desde 2020 Erick Beltrão é o Pajé do Caprichoso.
Porta-Estandarte
Quem conduz o pavilhão.
Carrega o símbolo maior da agremiação pela arena. Desde a pioneira Rosames Suely, em 1989, o posto passou por nomes como Marcela Pessoa, Lucenize Moura e Karyne Medeiros. Desde 2017, Marcela Marialva, natural de Manaus, conduz o pavilhão azul.
Sinhazinha da Fazenda
A dama do auto.
Protagoniza o auto do boi com elegância e presença cênica. A linhagem tem uma simetria bonita: começou com Karina Cid, em 1993, e hoje é conduzida por Valentina Cid, da mesma família que ajudou a fundar o boi — no posto desde 2017.
Rainha do Folclore
A soberana da festa.
Representa a realeza e a tradição da brincadeira. Inah Lopes a interpretou já nos anos 1980; Brena Dianná marcou o posto por quase uma década, de 2009 a 2018. Desde 2018, Cleise Simas é a Rainha do Folclore.
Amo do Boi
A voz dos desafios.
Figura que entoa os desafios e comanda a brincadeira, herança direta do boi de rua. Rey Azevêdo abriu a era pós-Bumbódromo, em 1984. Ao longo dos anos, o posto passou por Edilson Santana, Edmundo Oran e Herland “Prince do Boi” Pena (2017–2024). Desde 2025, Caetano Medeiros é o Amo do Boi.
Boi-Bumbá (Evolução)
O legado dos Azevedo. Os corpos que fazem o boi dançar.
Este é o item que dá vida ao próprio boi: o tripa veste a estrutura e a faz evoluir na arena, transformando madeira e pano em movimento. E em nenhum outro item a ideia de herança é tão literal — porque o Boi-Bumbá Evolução do Caprichoso é, há mais de trinta anos, história de uma família só. Marcos Azevedo, o “Markinhos”, marcou época como tripa de 1990 a 2016, tornando-se uma das figuras mais queridas dos bastidores do boi. O legado passou para Alexandre Azevedo, filho de Markinhos, que assumiu em 2017. E desde 2025 o bastão segue na mesma família com Edson Azevedo Jr., sobrinho de Markinhos — três gerações fazendo o Boi Negro evoluir na arena.
Marcos “Markinhos” Azevedo — tripa do Boi-Bumbá Evolução de 1990 a 2016.
O lado social
Mais que um boi: uma escola.
Desde 1997, o Caprichoso mantém a Escola de Artes Irmão Miguel de Pascalle — a “Escolinha de Artes Caprichoso” — criada na gestão do presidente Joilto Azêdo. Começou tímida, com cerca de 50 crianças. Hoje, atende mais de 700 jovens, de 7 a 20 anos, em iniciação artística, apoio ao esporte e reforço escolar. A escola é aberta a qualquer criança matriculada na rede de ensino — porque, antes de formar artistas para a arena, ela forma gente.
A festa além da ilha
O Caprichoso em Manaus.
Há mais de 30 anos, o Bar do Boi leva o espírito do Caprichoso para Manaus. Promovido pelo Movimento Marujada, o evento reúne todos os itens, bandas e grupos de dança do boi num grande show, e se tornou uma das principais vitrines do Festival Folclórico de Parintins para o Brasil e o mundo.
Sabia que?
Três curiosidades que contam o Boi Negro.
O nome veio de longe
O Caprichoso de Parintins foi batizado em homenagem a um boi homônimo que existia em Manaus, no início do século XX.
O preto como afirmação
A cor negra do Caprichoso é uma escolha de identidade — símbolo de força, mistério e afirmação do povo amazônico.
Curral Zeca Xibelão
A sede do Caprichoso leva o nome de Zeca Xibelão, icônico tuxaua da história do boi, e é o coração da galera azul durante todo o ano.
O Caprichoso reconhece 29 títulos de campeão do Festival Folclórico de Parintins ao longo de sua história. A contagem começa em 1967 — quando o boi azul foi aclamado como o melhor e conquistou sua primeira vitória — e atravessa mais de cinco décadas de arena: do pioneiro tetracampeonato de 1976 a 1979, que fez do Caprichoso o primeiro tetracampeão da história do Festival, aos tricampeonatos de 1994–1996 e 2022–2024, até o título de 2026.
Vale lembrar que os primeiros festivais, em 1965 e 1966, ainda não tinham disputa entre os bois: a festa nasceu como um arraial em benefício da Catedral, e a competição só começou a tomar forma em 1967. Por isso, a história de conquistas do Caprichoso começa exatamente onde começou a disputa.
29
Títulos de campeão do Festival
2
Tricampeonatos (1994–1996 e 2022–2024)
1913
O ano em que tudo começou
1
Único empate da história (2000)
Títulos por ano
29 títulos
1967Campeão
1969Campeão
1972Campeão
1974Campeão
1976Campeão
Tetracampeonato 1976–1979
1977Campeão
Tetracampeonato 1976–1979
1978Campeão
Tetracampeonato 1976–1979
1979Campeão
Tetracampeonato 1976–1979
1985Campeão
Negrão Maravilha
1987Campeão
Revolução da Arte no Mundo
1990Campeão
Raízes de um Povo
1992Campeão
A Arte de Folclorear
1994Campeão
Capricho dos DeusesTricampeonato 1994–1996
1995Campeão
Luz e Mistérios da FlorestaTricampeonato 1994–1996
1996Campeão
Criação CaboclaTricampeonato 1994–1996
1998Campeão
85 Anos de Cultura
2000Campeão (empate)
A Terra é Azul
2003Campeão
90 Anos de Raízes e Tradições na Amazônia
2007Campeão
O Eldorado é Aqui
2008Campeão
O Futuro é Agora
2010Campeão
O Canto da Floresta
2012Campeão
Viva a Cultura Popular!
2015Campeão
Amazônia
2017Campeão
A Poética do Imaginário Caboclo
2018Campeão
Sabedoria Popular: Uma Revolução Ancestral
2022Campeão
Amazônia, Nossa Luta em PoesiaTricampeonato 2022–2024
2023Campeão
O Brado do Povo GuerreiroTricampeonato 2022–2024
2024Campeão
Cultura — O Triunfo do PovoTricampeonato 2022–2024
2026Campeão
Brinquedo que canta seu chão
Capítulo histórico
Os dois tricampeonatos
Em mais de cem anos de arena, o Caprichoso conquistou dois tricampeonatos — 1994–1996 e 2022–2024. São os únicos trios de títulos consecutivos da história do Boi Negro.